Resumo da Notícia
Após 173 capítulos, finalizou, na data de hoje, a nova versão de “Vale Tudo”, a trama que foi produzida como principal produto das comemorações dos 60 anos da TV Globo. “Vale Tudo” de 1988, trama de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères é considerada a melhor novela brasileira de todos os tempos.
Para a missão de escrever a nova versão – sabe-se lá por qual motivo – a escolhida foi Manuela Dias, uma autora inexperiente com telenovelas. Sua única experiência, até então, havia sido com “Amor de Mãe”. A escolha de Manuela, para essa empreitada, foi infeliz. Não se discute aqui o talento da escritora. Ela escreveu produtos excelentes para a televisão, como: “Ligações Perigosas” e “Justiça”, porém, eram séries e não novelas. E existe uma diferença muito grande entre os dois produtos.
“Vale Tudo” foi um surto coletivo. A nova versão não respeitou a versão original, foram criadas tramas sem qualquer desenvolvimento. O fio condutor da trama foi esvaziado. Assuntos polêmicos foram jogados na novela apenas para viralizar. Não houve profundidade em nenhum desses temas. Por incrível que pareça, a versão de 2025 foi mais conservadora do que a versão de 88.
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Um bom exemplo, foi o que aconteceu com o casal Laís e Cecília. Em 1988, uma das personagens teve que morrer, pois a censura não aceitava um casal lésbico. Durante a novela, passou-se a discutir a herança que fora deixada por Cecília, trama muito bem desenvolvida pelo trio de autores originais. Lais disputava com Marco Aurélio a pousada de Búzios. Em 2025, nos foi passado que não havia mais a necessidade de morte da personagem, o que seria uma “evolução”, o que não ocorreu. A trama foi esvaziada, a história da adoção foi esquecida. E o casal foi jogado para escanteio. Não gerou qualquer discussão. A versão de 88, mesmo censurada, foi mais progressista.

O fio condutor da novela era a relação entre Raquel (pilar da honestidade) e Maria de Fátima (ambiciosa sem escrúpulos). Enquanto Maria de Fátima fazia de tudo para ficar rica, aplicando vários golpes, Raquel preferia subir com ética, enriquecendo com o próprio trabalho. Em um determinado momento da trama, as armações de Maria de Fátima são descobertas e ela perde tudo. Raquel enriquece. Maria de Fátima bate na porta da mãe, agora rica, e pede abrigo. Raquel nega e joga na cara que não “vale tudo” para subir na vida. Era o clímax da telenovela. Porém, em um total desrespeito ao arco dramático de Raquel, a autora deixa a protagonista pobre novamente e, quando Fátima bate na porta da mãe, Raquel ainda está pobre. Ou seja: sua honestidade também não valeu de nada.
Tais Araujo, a PROTAGONISTA da novela, mulher preta, ativista, reclamou, em uma entrevista, do arco perdido de Raquel. Ela se mostrou frustrada com o rumo da personagem. Ao que parece, a Autora não gostou da crítica, e Raquel foi, totalmente, esquecida. Não houve mais embate com Maria de Fátima. Não houve mais embate com Odete Roitman. Se a primeira versão era Raquel quem desmascarava Odete Roitman, na segunda versão foi Heleninha. Se na primeira versão a Raquel assumia o assassinato de Odete para proteger a filha, como faria toda heroína, nesta versão foi Celina que assumiu o crime para proteger sua sobrinha Heleninha Roitman.
Independente do desenvolvimento esvaziado de Raquel, Tais Araujo foi um dos grandes nomes do elenco. Incorporou sua Raquel desde o primeiro capítulo. Segurou todas as cenas até o momento em que Odete foi racista com Raquel. Mesmo com o declínio da personagem, mostrou-se digna ao entregar seu máximo para a PROTAGONISTA da trama.
Débora Bloch foi outro grande destaque da novela. Se no início a atriz ainda carregava os trejeitos de sua personagem anterior, a vilã de “No Rancho Fundo”, em pouco tempo conseguiu encontrar o tom ideal para Odete. Com vários bordões e com um apetite sexual absurdo, Odete virou mania nacional. Sua morte parou, novamente, o Brasil e elevou Débora Bloch ao patamar do primeiro time da Globo.
Outros foram os destaques do elenco: Carolina Dieckmann, Alexandre Nero, Alice Wegmann, Malu Galli, Belize Pombal, Luis Lobianco, Guilherme Magon, Lucas Leto, Ricardo Teodoro e Júlio Andrade.
Serve, aqui, uma menção honrosa para Bella Campos. A atriz, inexperiente, nunca deveria ter sido escalada para um papel tão importante como Maria de Fátima. Porém, dentro do universo cômico em que se desenvolveu toda a novela, Bella conseguiu encontrar o tom de sua personagem. Termina a novela maior do que entrou, certamente.
